Sunday, July 27, 2014

A Tentação tecnológica




Hoje fugirei um pouco de minhas lembranças passadas envolvendo anônimos ou conhecidos, pessoas encaradas pela sociedade como "gente anormal".
Falarei a respeito de um aparelhinho encantador que virou febre em todos os lugares. 
Já li e reli a respeito das tentações criadas pelo Diabo ao longo dos séculos e séculos.
E cheguei à conclusão que sua última invenção para afundar a sociedade humana foi um aparelho chamado: CELULAR.
 Dizem que é prático e útil, até concordo! 
O que seria de nós sem o celular?
Se bem que nossos antepassados nem tinham telefone. 
Porém, o que noto ultimamente é que as pessoas estão completamente viciadas em celular!
Cansei de contar quantos esbarrões levei na calçada por transeuntes desatentos, mas que  atentos no celular.
  Cansei de ver motoristas dirigindo o seu automóvel enquanto falavam no celular.
Perdi as contas de quantos  casais, em pleno restaurante, deixaram de comer tranquilamente, para conferir o celular.
Na peça teatral que abordava justamente a respeito disso, antes do espetáculo, namoradinhos mantinham-se ligados no celular, para ajudar, cada um tinha o seu aparelhinho.
Durante o espetáculo, um jovem musculoso, conferia a todo momento suas mensagens no Facebook através do celular.
Claro, a luzinha atrapalhava os demais expectadores que estavam por perto, ao mesmo tempo que permitia conferir o plano de fundo; um homem musculoso e atraente.
Crianças? 
Nem me fale!
Acho que até usam menos o celular do que os próprios pais.
Mas é fato que usam!
E assim esse aparelhinho diabólico com poderes titânicos vai interferindo a comunicação face to face do munto real. 
Penso...
Será que existe alguém que escondeu o celular no caixão do seu defunto?
Quem sabe lá no além o dito cujo consiga fazer uma ligação no seu celular, para dizer que chegou bem no céu ou mal no inferno?
Talvez no momento do "sim" durante a cerimônia de casamento, o celular do noivo toque a fim de alguém convencê-lo a dizer "não". 
Sim, Lúcifer ou seja lá o nome que o chamem, deve estar satisfeito com essa falta de atenção que o Homem causa ao próprio Homem, ou melhor, tem causado a si mesmo.
É o Diabo aderindo a tecnologia em seu favor.

Nadja P.

Thursday, July 3, 2014

"Louquinho"


Kirk Douglas

   Ele era alto, esbelto, loiro, tinha olhos azuis e estava sempre impecavelmente elegante, fazendo uso de camisa e calça social. 
 Tudo muito limpo e bem passado.
 Devia ter uns trinta e poucos anos e lembrava um antigo galã de cinema, de nome Kirk Douglas, quando jovem.

 Uma vez por semana era certo que, por volta das onze horas, o homem surgia da Rua Luzitana, e ficava parado na esquina por cerca de uma hora.
 Não falava com ninguém e ninguém falava com ele.
 Impaciente, olhava para um lado e para outro, enquanto conferia a hora no relógio.
 Com o passar do tempo ficava cada vez mais nervoso, passando uma das mãos sobre os cabelos, como estivesse esperando alguém que nunca aparecia.
 Minha família o chamava de "Louquinho", então nunca pude saber o seu verdadeiro nome.

 Certa vez não consegui calar a minha curiosidade e perguntei à minha mãe, quem era aquele homem que todos chamavam de "Louquinho".

 - Ele é louco, minha filha...

 Foi abandonado na porta da igreja pela sua noiva, no dia do casamento. 

 - Mas onde ele mora, mamãe? - perguntei.


 - Ele mora com a mãe, perto do Bosque dos Jequitibás. Disseram que é de família boa, gente de posse. 


 Naquela hora entendi um pouco, mas quase nada. 
Para uma criança de apenas sete anos de idade, vivendo no final da década de 60, impossível entender o que era a loucura.

 "Louquinho" continuou na sua espera por bons anos até que um dia sumiu do mapa. Ninguém soube para onde foi.
 Será que encontrou a sua amada?  Quem sabe foi internado em um sanatório para sempre?
 Mistério...

 Nadja P.

Friday, January 24, 2014

Preto e branco


RACISMO

Quando menina raramente via casal interraciais caminhando pelas calçadas.
Isto na década de 60/70, o que não faz tanto tempo assim, penso eu.
Quando aparecia um casal interracial era motivo de espanto e não de admiração, porque as pessoas naquela época eram preconceituosas demais.
E ainda são, porque o fato de vivermos em um país miscigenado como o Brasil, por exemplo, não diz nada.
Uma recordação que trago comigo é de um bonito casal.
Ele negro, professor de inglês, ela branca, dona de casa.
Ambos tinham uma filha que estudava na mesma escola que eu.
Todos os dias a sua mãe, uma linda jovem que parecia atriz italiana dos anos 60, conduzia à escola sua filha, uma menina de pele clara e cabelos crespos. 
O pai raramente acompanhava-as, mas o fato da mãe ser branca e a filha ter pele um pouco mais escura já era motivo para bochichos e olhares indagadores.
Hoje isso não é mais novidade. 
 Porém, o preconceito ainda racial continua firme e forte nas trincheiras da vida dos brasileiros.
E dependendo do meio é cultivado com maior intensidade.
Só não vê quem não quer.
  
Nadja P.

Tuesday, January 14, 2014

A Grande Família


A Grande Família

 Início dos anos 70...
 Não era uma família como a maioria da época. 
 O fato que vou relatar aqui é real. E por conta da ética, omitirei os nomes verdadeiros.
 Pois bem, quando morávamos na área central um dos  nossos vizinhos chamava-se "Seo Kaka". 
 Homem bem aparentado, charmoso, educado, e fisionomicamente parecido com o ex-presidente egípcio Anwar Sadat, só que mais claro do que o falecido político. 
 Seo Kaka foi casado em primeiras núpcias com Dona Keké, senhora bonita, discreta e educada. 
 O casal não teve filhos.
 Mas recolheu para dentro de casa a Kiki, sobrinha de Dona Keké, jovem bonita e vistosa que, aos poucos, enrabichou-se com o Seo Kaka, esposo de sua solidária tia.

 Com o tempo o casal desquitou-se (como era chamado na época) e o Seo Kaka casou-se com a jovem Kiki e tiveram dois filhos.

 Dois meninos, por sinal, educados e bonitos.
 O tempo passou novamente e o Seo Kaka separou- se da Kiki, mulher danadinha que causava frisson por onde passava, porque era bonita.

 Novamente Seo Kaka ficou sozinho por um tempo, mas logo decidiu casar-se novamente. 

 E desta vez escolheu a Kokó, mulher feia, sem graça e sem sal. 
 Com ela teve dois filhos feiosos como a mãe.
 Sim, mas aonde entra o título: A Grande Família?
 Ora, todos sem exceção davam-se muito bem!

 A  ex-primeira esposa do Seo Kaka, a discreta Dona Keké, era madrinha de batismo de um dos filhos de Kokó, a terceira esposa com quem ele havia casado.

Kokó, a feiosa, costumava chamar  Dona Keké de "comadre" enquanto um dos seus filhos a chamava de "madrinha". 
 Kiki, a sobrinha de Dona Keké, que foi a causa da separação da tia, frequentava regularmente a casa do Seo Kaká e da Kokó, sem problemas! 
 E de vez em quando levava um novo namorado...
 Muitas vezes, Kiki deixava os filhos o dia inteiro por lá e só buscava-os à noite, depois que voltava do trabalho.
 Os meninos da Kiki, por sua vez, davam-se muito bem com os filhos da Kokó, a madrasta.
 E assim perdi as contas de quantas vezes a grande família reunia-se aos domingos, para almoçar numa grande mesa estendida no rancho da casa. 

 Nunca ouvi uma discussão ou coisa parecida. 

 Também nunca notei nenhum sinal de ciúmes entre as mulheres, apesar de minha pouca idade.
 O que realmente marcou foi a interação que todos ali cultivavam entre si numa família fora dos padrões.
 A última cena que tive dessa grande família foi no funeral do Seo Kaka...
 Estendido em um caixão e coberto por flores, Seo Kaka ficou o tempo inteiro rodeado por Dona  Keké, sua ex-primeira esposa, pela Kiki, a ex-segunda esposa e os dois filhos, seguidos de Kokó, a terceira e última, juntamente com seus filhos. 
 Todos unidos, prantearam a morte do velho garanhão.
 Não, não desejo julgar ninguém.  A sociedade daquela época deve ter feito isso muito bem!

 Por parte dos meus pais nunca houve sinal de preconceito embora não aprovassem nada daquilo.

 Seo Kaka além de ser bom vizinho, era uma boa pessoa, tornou-se até amigo do meu pai. 
 Ambos davam-se muito bem. E a grande família nunca nos causou qualquer aborrecimento.
 De minha parte, juro, nunca cultivei nenhuma distância das crianças ou dos adultos por conta disso tudo, mesmo tendo pouco contato com eles, porque a minha mãe não deixava brincar na casa de ninguém.
 O fato é que era uma família feliz! Do jeito deles.

 Nadja P.

Sunday, June 2, 2013

Olá!



 Olá,

 Mudei o o nome e o visual do espaço, porque decidi que vou registrar as minhas lembranças. 

 De preferência, tudo o que esteja voltado para o "mundo marginal" onde nem tudo é bonitinho, certinho e rosinha.
 Afinal, nem as rosas fugiram de ter seus espinhos.

 Porém, uma coisa é certa, essas observações colhidas desde então, fizeram-me ver a vida e as pessoas com outros olhos.